quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

'Mensagem' de Fernando Pessoa. Texto de Vasco Graça Moura (3)

 

Notas sobre a 'Mensagem' (III)

por Vasco Graça Moura
23-12-09



      Além de toda uma série de paradoxos gratuitos, de "isto-ser-também-aquilo-podendo-afinal-ser-uma-outra-coisa-qualquer-e-o-contrário-disso", isto é, em que uma coisa acaba por perder toda a espécie de identidade ou mesmidade própria e de lógica de existir, no exacerbamento de uma dialéctica petrarquista cujos processos elementares remontam entre nós aos poetas do Cancioneiro de Resende, em Pessoa impacientam-me profundamente outras afirmações que já no tempo em que ele escrevia não tinham pés nem cabeça, como a de que Guerra Junqueiro "desalojou Camões do primeiro lugar ao publicar Pátria em 1896".
Não resisto a citar Jorge de Sena: "ainda hoje persiste, na meia-tijela intelectual, a fascinação pelo pretensiosismo filosofante de Junqueiro..."
     De resto, parece haver um verdadeiro equívoco quando Pessoa vaticina o aparecimento do "Supra-Camões", uma vez que deveria antes estar a avistar um "Supra- -Junqueiro" no horizonte…
     Também me irritam exclamações interjeccionais e pouco adequadas a um culto de semideuses como "É a hora!", ou como "falta cumprir-se Portugal!" Começo por não perceber o que elas querem dizer, por muito hipotética ou "quinto-imperialmente" patrióticas que sejam. Parecem envolver uma escatologia mais do que duvidosa e muito pouco interessante até do ponto de vista sebástico ou messiânico.
     Mas dê-se de barato que esses meus estados de alma interpretativos são questão que só a mim diz respeito. Pessoa exalta os saudosistas e o seu "mergulhar (sem precedentes) nas profundezas da consciência nacional - que os poetas antigos nunca logravam, pois Camões é italiano e Gil Vicente só superficialmente..." E tem ainda esta passagem delirante: "Portugal (…) começa finalmente a sacudir o chumbo da tradição anti-nacionalista representada pelo italianizado Camões."
     Enquanto Pessoa ele-mesmo, lá daquelas abismais "profundezas da consciência nacional", vai congeminando estas trapalhadas, Álvaro de Campos faz coro na aversão a Camões: "Há poetas que atiram com o que sentem para o verso; nunca verificaram que o não sentiram. Chora Camões a perda da alma sua gentil; e afinal quem chora é Petrarca. Se Camões tivesse tido a emoção sinceramente sua, teria encontrado uma forma nova, palavras novas - tudo menos o soneto e o verso de dez sílabas. Mas não: usou o soneto em decassílabos como usaria luto na vida."
     É a respeito de Camões que Pessoa escreve algumas das mais surpreendentes enormidades da sua prosa crítica. O que ele diz quanto a Os Lusíadas no artigo do Diário de Lisboa que já referi permite-nos perceber o que é que tentou na Mensagem, a começar pela sua concepção de poema épico e pelo que dessa concepção aí se revela.
     A sua leitura da obra camoniana mostra apenas uma série de equívocos e um certo tipo de despeito face ao épico pela própria incapacidade de engendrar o Supra-Camões que ele, Pessoa, estava convencido de ser ou de vir a ser.
     Noutro lugar, diz também que "Os Lusíadas de Camões têm paixão (o patriotismo), imaginação (o Adamastor, a ilha dos Amores), mas são falhos de pensamento".
     A Mensagem é um ciclo poético com algumas belas coisas e com algumas coisas menores, em que talvez não falte a imaginação, mas em que faltam a paixão e o pensamento, isto para recorrer às categorias do próprio Pessoa. Corresponde a um sentido muito pouco consistente da identidade nacional, concebida, mais do que vivida, em termos de um Saudosismo estático e estéril, que foi com toda a probabilidade o mais nacionalmente inabilitante dos movimentos intelectuais da nossa história cultural.
     É também uma sequência de figuras hábil e abstractamente elaboradas no vazio onírico de uma História cujo sentido Pessoa, poeticamente, só percebeu em termos fantasmáticos e ultrapassados e cujo desembocar na sua própria actualidade ele concebia, afinal, como correspondente a um desfile de heróis de antigamente resvalando para o "nevoeiro" de agora. Mas Pessoa está "só e sonha saudade" através da História. E, se o nevoeiro significava a decadência (já personificada no Doido cujo retrato terrível se hipostasiava a Portugal em Pátria de Junqueiro), até nisso ele estava a ser influenciado por Camões.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

'Mensagem' de Fernando Pessoa. Texto de Vasco Graça Moura (2)

Notas sobre a 'Mensagem' (II)

por Vasco Graça Moura
 16 de Dezembro de 2009


      A crise aberta pelo Ultimato alimentou por décadas a visão da nossa História e da nossa identidade. Eduardo Lourenço ainda há poucos dias chamou a atenção para isso.
     Vem desde antes do Saudosismo uma certa espectralidade, enevoada e simbólica, na imagem de Portugal, prefigurada em 1896 no Doido de Pátria de Junqueiro que vagueia post Ultimatum mas, pelo menos, "fica olhando, olhando, atónito e demente, / a epopeia d'outrora, a bíblia do passado"...
     Há registos fortes e literais dessa espectralidade em Beirão quando fala de Portugal, do mar e dos outros elementos e dos fantasmas do seu cortejo de ausentes (com laivos de certo vitalismo de matriz nietzschiana), de uma Dor ontológica (ainda de matriz anteriana) e da referência a "um povo que nas trevas se suicida!" A fantasmagoria de Pessoa é mais heráldica e hierática, mais seca e mais descarnada, digamos mesmo, mais abstractamente "desumanizada".
     Por outro lado, a visão histórica implícita na Mensagem é muito tradicional e esquemática, quase se limitando aos protagonismos heróicos de portugueses que Pessoa também eleva à categoria de semideuses: "A maior coisa nele [em Camões] é o não ser grande bastante para os semi-deuses que celebrou." O termo "semideuses", usado duas vezes n' Os Lusíadas (V, 88 e IX, 92) é-o por Junqueiro, na cena VIII de Pátria, e por Beirão na Lusitânia: "O Gama é um semi-deus!"
     Mesmo que eu queira dar um desconto benevolente a tão inacreditável formulação, lamento mui empedernidamente não entender as categorias de sebastianista místico e de sebastianista racional . Mas reconheço não ser sensível a nenhuma espécie de ontologia ou de messianismo saudosista, sebástico, joaquimita ou místico…
     Pessoa nunca compreendeu que, para engendrar uma epopeia, teria sido também necessário incluir nela uma dimensão lírica, em especial no tocante ao amor, às suas várias formas, aos seus casos concretamente considerados, à sua possível dimensão ontológica e até cósmica. Acontece com a Ilíada, a Odisseia, a Eneida, a Divina Comédia, o Orlando Furioso, Os Lusíadas… Na Lusitânia, "A Monja", é um poema de amor e distância. Mas Pessoa, num artigo do Diário de Lisboa de 4.2.1924, chamava "inferior" (!!!) a quem admirasse a Lírica:
     "Camões é Os Lusíadas. O lírico, em quem os inferiores focam a admiração que os denota inferiores, era, como em outros épicos de sensibilidade também notável, apenas a excedência inorgânica do épico." E remata: "Em certo modo [Camões] viveu o que cantou, sendo, assim, o único épico que foi lírico ao sê-lo. Essa sua singularidade, que é uma virtude, é, como todas as virtudes, origem de vários defeitos."
     Seja como for, Camões falta numa galeria que parece fazer tábua rasa do contributo do épico para a língua portuguesa e da importância desta e de Os Lusíadas na configuração de uma identidade nacional.
A omissão é intencional, mas não chega para arredar um espelhamento, como que feito "do avesso", de alguns passos da épica camoniana. É, p. ex., o caso do Mostrengo que não pode deixar de ser lido em correlação paradigmática com o Adamastor (também presente em Beirão), mas em versão empobrecida precisamente pelo escamoteamento de toda e qualquer veleidade lírico-amorosa na Mensagem. E ali, até o homem do leme não faz mais do que insistir em passar os tão camonianos "vedados términos" (Lus., V, 41). E os filhos varões de D. João I são figuras da Mensagem em evidente recorte paradigmático da "ínclita geração, altos infantes" (Lus., IV, 50) …
     Sobre o que seria o seu próprio poema épico intitulado Portugal (título ainda ostentado pelo dactiloscrito da Mensagem já em tipografia), Pessoa dizia à Revista Portuguesa: "Literariamente, o passado de Portugal está no seu futuro. O infante, Albuquerque e os outros semideuses da nossa glória esperam ainda o seu cantor." Não era verdade, mesmo nesta concepção tão despojada de "semideias".
     Como sou bastantemente antipessoano, talvez haja quem se surpreenda por me ouvir opinar que há na Mensagem alguns belos poemas e alguns belos versos, de par com outras coisas patentemente falhadas e desinteressantes. Mas já ninguém se espantará de me ouvir considerar aquela afirmação de que "literariamente, o passado de Portugal está no seu futuro" uma portentosa parvoíce, à maneira, para mim insuportável, de muitos paradoxos pessoanos do mesmo tipo. (Continua)

'Mensagem' de Fernando Pessoa. Texto de Vasco Graça Moura.

Notas sobre a 'Mensagem' (I)

por Vasco Graça Moura 

09 Dezembro 2009

 
      A propósito da apresentação da extraordinária edição clonada da Mensagem de Fernando Pessoa que a Guimarães Editores lançou no dia 1 de Dezembro, data em que se completaram 75 anos sobre a sua publicação, participei com Eduardo Lourenço e Manuel Alegre numa mesa redonda, moderada por Carlos Vaz Marques, sobre Pessoa e o sonho do supra-Camões. Por me parecer que neste Dezembro e nesta época do Natal do nosso descontentamento, o melhor ainda é reflectir sobre alguns temas ligados à nossa identidade tal como foram espelhados em grandes obras literárias, organizo aqui as notas por que a minha intervenção se orientou, dedicando-as àqueles meus amigos e a Paulo Teixeira Pinto, não sem dizer, para que conste como declaração de interesses, que pertenço ao Conselho Editorial da empresa editora e que esta acaba de publicar um livro de minha autoria.
     Numa perspectiva histórica e literária, é interessante abordar a Mensagem a partir de duas questões: a primeira é a das suas relações com dois livros de Mário Beirão, O último lusíada (que é de 1913) e a Lusitânia (que é de 1917, depois revisto em 1964). A segunda é a da relação de Fernando Pessoa (e também de Álvaro de Campos) com a obra de Luís de Camões.
     As respostas a essas questões não têm sido muito desenvolvidas. Há, sem dúvida, aqui e ali alusões às relações de Pessoa com Mário Beirão e à admiração que por ele tinha; e são conhecidos artigos de Pessoa na Águia que disso dão testemunho e cartas dele para Beirão entre 1912 e 1914. Por singular coincidência, Mário Beirão veio a fazer parte do júri que atribuiu a Pessoa o Prémio Antero de Quental na categoria "poema ou poesia solta".
     David Mourão-Ferreira nota a importância de Beirão para a poesia de Pessoa, dizendo que, através de um dos veios da sua poesia, se manifesta naquele "o mais directo precursor do Fernando Pessoa da Mensagem".
     É esta uma perspectiva que interessaria desenvolver. Remetendo para o importantíssimo estudo que José Carlos Seabra Pereira consagra a Mário Beirão, a anteceder as Poesias completas deste, parece-me relevante salientar proximidades entre, por exemplo, o poema "Sagres" de Lusitânia e o Infante de Mensagem: "(…) E há um instante supremo em que ele cuida / Suster nas mãos o mundo; / Mas lenta e fluida,/ Discorre a noite pelo mar profundo…/ (…)", diz-se no primeiro, sendo este, sem dúvida, um passo a confrontar com: "Em seu trono entre o brilho das esferas, / Com seu manto de noite e solidão,/ Tem aos pés o mar novo e as mortas eras -…/ O único imperador que tem deveras / O globo do mundo em sua mão" (Mensagem).
     Outras proximidades começam, desde logo, com a própria evocação de vultos históricos que é feita nas duas obras. Mas, enquanto o conjunto de Mário Beirão começa em Nun'Álvares e vem até António Nobre, passando por Gil Vicente, Bernardim, Camões, Fr. Agostinho da Cruz, Bocage, Castilho, Camilo, João de Deus, Antero e Oliveira Martins, já o de Pessoa, na Mensagem, começa em Ulisses e em Viriato (origem mítica e origem histórica), passando pelos fundadores da primeira e da segunda dinastias e pelos filhos varões de D. João I, por Nun'Álvares e por mais uma série de figuras cuja série se detém em António Vieira.
     Parece que Fernando Pessoa quis fazer a primeira metade de uma galeria que Mário Beirão tinha trazido do século XV até às portas do século XX, havendo umas cinco ou seis figuras coincidentes nos dois casos, isto é, uma sobreposição que cobre mais ou menos o centro do período histórico respeitante à nacionalidade portuguesa.
     É evidente que há, da parte de Mário Beirão, um aproveitamento da História e um recorte dos seus protagonistas muito diferentes dos de Fernando Pessoa. Mas há pontos de contacto importantes. E em ambos os autores há um certo tipo de sebastianismo, mais romântico e fluidamente lírico em Mário Beirão, mais carlyliano, com passagem pelo Oliveira Martins da História de Portugal e de Os filhos de D. João I, e de propensão mais abstractizante em Pessoa. Quanto ao Sebastianismo de Pessoa, ele próprio, em 1935, escreve a Casais Monteiro: "Sou, de facto, um nacionalista místico, um sebastianista racional. Mas sou, à parte isso, e até em contradição com isso, muitas outras coisas." (Continua)